Terra Brasiliae

O Planisfério de Cantino

Quando o Brasil foi descoberto, era rei de Portugal D. Manuel I. Aclamado em 27 de Outubro de 1495, demonstrou aptidão para governar, apoiando os descobrimentos portugueses e o desenvolvimento dos monopólios comerciais.

Durante seu reinado, Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para as Índias (1498), Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil (1500), D. Francisco de Almeida tornou-se o primeiro vice-rei da Índia (1505) e o almirante D. Afonso de Albuquerque assegurou o controle das rotas comerciais do Oceano Índico e do Golfo Pérsico, além de conquistar para Portugal lugares importantes como Málaca, Goa e Ormuz.

 

D. Manuel optou por uma política de expansão indiana e pôs em prática as suas idéias, criando a oportunidade para a realização da viagem de Vasco da Gama iniciada em 1497, contra a oposição de parte do seu Conselho. Seu governo contribuiu para o fortalecimento do Reino, fazendo de Portugal um dos países mais ricos e poderosos da Europa. Utilizou a riqueza obtida com o comércio para construir edifícios reais, dando origem a um estilo que mais tarde viria a ser chamado de manuelino.

 

Após o descobrimento, e por muitos anos, entre os extremos determinados pelo meridiano do Tratado de Tordesilhas (1494), existiam poucos sinais de ocupação espalhados pela extensa costa do Brasil. A princípio, Portugal não se interessou pela terra recém-descoberta. O comércio de especiarias, após a expedição em que Vasco da Gama descobrira o caminho para as Índias, atraía a atenção dos portugueses.

 

Navegantes, exploradores, degredados, piratas, aventureiros e mercenários chegavam à Nova Terra, quase sempre de passagem. À exceção dos criminosos e exilados, a maioria pouco tempo permanecia no território recém-descoberto.

O comércio local praticamente inexistia e, provavelmente, quem por ali passava, apenas se beneficiava da abundância da terra para suprir suas naus de víveres, água, frutas e, eventualmente, praticar algum escambo com os nativos locais. Dali partiam para as aventuras de além-mar, provavelmente a caminho das Índias, tida como lugar de comércio, muitas especiarias e grande variedade de produtos manufaturados.

 

No Brasil do pós-descobrimento, os portugueses e outros povos navegadores andaram por essas terras atrás de riquezas minerais. Não obtendo o imediato sucesso, como alternativa passaram ao comércio de uma árvore de cerne vermelho, chamada pau-brasil (Caesalpinia Echinata), abundante em largas faixas da costa. Do cerne avermelhado da madeira se extraía uma substância corante, usada para tingir tecidos. Devido à sua grande resistência, era também usada para mobiliário e na construção de navios. Como não descobriram ouro no território, e o comércio do pau-brasil rendia muito menos do que a pimenta e a noz-moscada, o interesse de Portugal limitou-se ao envio de algumas expedições exploradoras.

 

Algum tempo se passou até que os primeiros povoados (na verdade eram apenas algumas habitações muito rudes, feitas de pau-a-pique, palha e barro) começassem a surgir na Nova Terra; com grande probabilidade, criados pela necessidade dos que ali chegavam sem muitas opções. Era o caso dos exilados por motivos políticos, delinquentes condenados por crimes comuns ou homens que fugiam de um castigo mais severo por terem praticado delitos graves.Nota: No decorrer do ano de 1549, a população litorânea entre Santos a Pernambuco girava em torno de 2.000 portugueses assistidos por 4.000 escravos íncolas*1. (Ferraro Vaz, A moeda de Portugal no mundo).

 

Até 1530 a intervenção de Portugal resumiu-se ao envio de algumas esquadras para verificação da costa e exploração comercial do pau-brasil; fundaram feitorias onde se armazenava a madeira até a chegada da próxima frota. Era comum, durante as idas e vindas ao Brasil, serem atacados por naus francesas, holandesas e por indígenas. No início, vinham apenas homens portugueses para o Brasil, o que provocou grande miscigenação, como consequência da formação de casais inter-étnicos.

 

D. João III levou avante a colonização do Brasil e, em 1532, mandou Martim Afonso de Sousa ocupar de forma organizada o território. No final do século XVI o Brasil já contava com um contingente populacional de cerca 30.000 brancos e 120.000 mestiços, sem contar a população dos aldeamentos dirigidos pelos jesuítas. Com tamanho efetivo, é natural que se fizesse sentir a ausência de numerário; na falta de moeda local, circulava a que havia em Portugal.

 

Com o tempo a Colônia foi crescendo e, devido ao florescente comércio do pau-brasil, mais e mais homens foram chegando, a essa altura acompanhados de amigos e inteiros grupos familiares. Com o passar dos anos, paulatinamente a moeda foi entrando em circulação, sendo aceita nas transações que até então privilegiavam o sistema de trocas. Devido à precária infra-estrutura do novo território, sequer se cogitava cunhá-las; mesmo porque, as que eram trazidas pelos viajantes cumpriam com seu papel nas poucas transações comerciais envolvendo numerário metálico.

 

Com a gente que chegava e se instalava, o comércio cresceu. As moedas estrangeiras nômades que antes chegavam de passagem com o tempo foram sedentarizando, juntando-se às portuguesas amparadas por documentos reais. O ouro praticamente não circulava no comércio comum; era destinado às transações nas Metrópoles, geralmente se prestando aos negócios da nobreza; por outro lado, a prata abundava. A proximidade com as minas de Potosi, explorada pelos espanhóis, facilitava o fluir do metal, fosse bruto ou amoedado nas oficinas hispânicas.

 

*1   Íncola = habitante

"...Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos..."